sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pai



Já fazem mais de seis anos que não ouço sua voz. Já não vejo seu sorriso feliz, seus olhos sempre otimistas. Já não sinto sua fé me contagiando, nem lhe vejo chegar cansado do trabalho, querendo um abraço meu.
Ah, o seu abraço! Que saudade me dá de seus braços grandes envolvendo meu corpo de criança, fazendo-me sentir protegida. Eu nunca mais estarei protegida, pai, como quando estava em seu abraço.
Lembranças... Umas provocam-me feridas, tamanha é a saudade que trazem junto a si.
Outras são gostosas, envolvem-me de um jeito que até fazem parecer que você ainda está aqui, que ainda estará do outro lado da linha aos domingos, ou em casa nos fins de ano, como antes.
Cada foto, cada objeto, cada cantinho ou momento que partilhei com você. Todos me trazem sua lembrança, seu sorriso, sua essência... Tudo impregna-se ainda mais em mim, à minha saudade.
Revivo os dias em que me levou ao parquinho, penteou meu cabelo desajeitadamente, ou quando me deixava dormir com o rosto sobre sua mão, velando meu sono.
Ah! Quantas vezes fechei os olhos, pai, tentando — em vão — reviver aquela sensação tão boa, que era estar tão próxima a você.
Como eu queria poder voltar no tempo para, mesmo não podendo salvar-lhe a vida naquela manhã de terça-feira, ao menos aproveitar mais cada momento ao seu lado.
Envolver-me novamente em seu abraço, deixar que me protegesse como antes; sentir novamente o pulsar de seu coração que, durante muito tempo, foi meu único pedido nas orações, antes de dormir; ver novamente seu sorriso gostoso e, mesmo que pela última vez, ouvi-lo chamar-me de "filha", mais uma vez.
Mas, não podendo fazê-lo, queria ao menos poder apagar da minha memória seu corpo desfalecido, machucado e já sem a vida que me trazia a paz ao coração. Desejaria poder esquecer a sensação de vê-lo ser jogado para dentro da terra, daquele buraco fundo, do qual nunca voltou — nem voltará —, sumindo para sempre da minha vida.
Eu te amo, Manoel Figuerêdo da Silva, e vou te amar até que minha vida também se acabe para que, enfim, eu possa lhe encontrar novamente.

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